SERTÃO DO MOXOTÓ

Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o lugar. Viver é muito perigoso... Guimarães Rosa. 


 A citação resume o que vem a ser Sertão! Conheça o Sertão do Moxotó e sua realidade que começa e ser transformada a partir do trabalho de atores sociais comprometidos com a transformação das comunidades.

Por Neto Rodrigues, jornalista.
Hoje visitei a casa da do Cícera, que com seu filho Kaike, vive dias melhores e mais promissores em Baixas. Quando nasceu, Kaike esteve perto da morte. A exemplo de dezenas de crianças que não venceram a batalha pela vida, Kaike era mais uma vítima da desnutrição, da fome, da sede.
Até 2010, a realidade era cruel com as famílias de Baixas. Sem água, sem alimentação adequada (os programas de transferência de renda eram e são insuficientes), a comunidade lutava para sobreviver. Foram dias difíceis.
Graças a solidariedade de pessoas de Pernambuco e outros estados, que unidas passaram a buscar recursos e apoio com empresas e voluntários, essa página foi virada. O futuro de Baixas é bem mais promissor e a vida muito melhor.
Joana D’arc Henzel, que coordena a ONG PÃO É VIDA, me acompanhou na visita a Cícera e explicou como o engajamento e a solidariedade salvaram a vida de dezenas de crianças e de quebra mudou a realidade do vilarejo. Fonte: http://alemdomeuumbigo.com.br/solidariedade-venceu-a-mortalidade-infantil-em-baixas/

Onde os fracos não têm vez

José Cícero do Nascimento, 48 anos, pai de oito filhos, seis deles ainda vivos. Um homem do sertão, um sobrevivente. O Tota, como é conhecido, é um daqueles homens que fez o impossível para viver, criar os filhos, prover a família.
Dos tempos de falta de água, ele lembra das intermináveis caminhadas até às montanhas que cercam os sítios de Baixas, no sertão do Moxotó, no interior de Pernambuco. “Levava as cabras lá, nas Serra, soltava para comer e todo dia precisava levar água a elas”. Um trecho de mais de 15km de ida e outros 15km de volta. Tudo isso em meio a caatinga, subindo encostas, debaixo do Sol forte que castiga o sertão.
Antes, uma longa caminhada para buscar água, no único poço que havia na comunidade. “Era sofrido, muito. Tinha dias que eu falava que não voltava mais na Serra, só que no outro dia, tinha que fazer tudo de novo. Só tinha as cabras. Aqui não nascia nada. Tudo seco, sem água”.
Isso foi há mais de cinco anos, antes da chegada da ONG Pão é Vida na comunidade. Idealizada por Joana D’arc Henzel e seu marido Ronaldo Henzel, a Organização é a grande responsável pela mudança da história de Baixas e seus moradores. Só que isso é história para o Documentário que estou produzindo é também para textos futuros.
No entanto, o trabalho de Joana e Ronaldo, totalmente desvinculado de qualquer forma de governo ou sistema político trouxe para esse povo fatura e uma perspectiva de desenvolvimento em médio e longo prazo.
O seu Tota é um, entre tantos moradores locais, beneficiado com o trabalho da ONG que busca recursos com empresas e pessoas para perfurar poços, construir cisternas, desenvolver a criação de pomares, plantio de melancias, feijão, milho. Além disso, atua na saúde preventiva, saúde bucal, trazendo médicos e dentistas para atender a população. Com recursos próprios e de parceiros, eles construíram até mesmo um clínica odontológica em Baixas.
O projeto é uma realidade, dezenas de famílias hoje plantam, colhem, criam animais de pequeno porte e tem o elemento essencial da vida, água.
Graças ao trabalho de Joana e Ronaldo, aliado a garra e a vontade deste povo de crescer e prosperar, o deserto que um dia foi Baixas está se tornando um Oásis. O lugar onde os fracos não têm vez está sendo vencido pouco a pouco. O que mudou na vida do seu Tota e muita gente? 

                        

Dia 28 de Abril – Dia Nacional da Caatinga

O Decreto Federal de 20 de agosto de 2003, publicado no Diário Oficial da União, seção 1, edição 161, página 5, de 21 de agosto de 2003 institui o Dia Nacional da Caatinga, a ser comemorado no dia 28 de abril de cada ano. A data homenageia o professor João Vasconcelos Sobrinho (1908-1989), pioneiro na área de estudos ambientais no Brasil. O Dia Nacional da Caatinga foi celebrado oficialmente pela primeira vez no Seminário “A Sustentabilidade do Bioma Caatinga“, ocorrido nos dias 28 e 29 de abril de 2004 em Juazeiro, na Bahia.
Caatinga é um termo de origem Tupi-Guarani e significa floresta branca. O termo resulta da combinação dos elementos ca-a (floresta), tî (branco) e o sufixo ngá, (que lembra). A razão para esta denominação reside na aparência que a floresta revela durante a estação seca, quando a quase totalidade das plantas estão sem folhas e os troncos brancos e brilhosos, extraordinárias estratégias para diminuir as perdas de água nesta estação. Outra estratégia destacável são as folhas modificadas na forma de espinhos. Com esse conjunto mínimo de adaptações à deficiência hídrica, a Caatinga se mostra como uma vegetação xerófila, espinhosa e caducifólia, de certo, seus aspectos mais nítidos. Carl von Martius (1794-1868) renomado botânico alemão que esteve no Brasil no século XIX, referiu-se a caatinga como silva horrida (floresta feia). Verdadeiramente, parece não existir beleza e alegria em algo seco e branco, no entanto, quando as primeiras chuvas caem sobre a caatinga uma extraordinária explosão de cor e vida emerge, numa mudança repentina de paisagem das mais espetaculares do mundo.
Essa cobertura vegetal exclusivamente brasileira é singular, ou seja, não é encontrada em nenhum outro lugar do mundo além do Nordeste do Brasil. Ocupa uma área de aproximadamente 900 mil quilômetros quadrados englobando de forma contínua parte dos estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e Minas Gerais. Durante muito tempo a Caatinga foi descrita como ecossistema pobre em espécies e endemismo. No entanto, estudos recentes apontam o contrário. A flora já levantada registra aproximadamente mil espécies, das quais um terço são espécies endêmicas (exclusivas). Estima-se que o total de espécies vegetais alcance 2 mil a 3 mil. Ademais, mamíferos, peixes, aves, répteis e anfíbios superam mil espécies com um nível de endemismo bastante variado. É desse patrimônio biológico que o sertanejo obtém madeira, carvão, carnes, frutas, plantas medicinais, fibras, mel e forragem para os rebanhos.
Infelizmente, o mau uso e ocupação da terra pelo Homem têm, há tempos, levado um estresse ambiental à caatinga sem precedentes na história. As razões para esse desmantelamento da caatinga tem sido o uso da mata nativa para lenha e carvão e o avanço de polos agropecuários. Para dar uma ideia da velocidade da destruição, entre 2002 e 2008, a caatinga foi removida o equivalente a 1.657.600 campos de futebol, conforme o estudo.

(ARNÓBIO CAVALCANTE é pesquisador-adjunto, ecólogo do Ministério da Ciência e Tecnologia em exercício no Instituto Nacional do Semiárido).


Nenhum comentário:

Postar um comentário