domingo, 26 de agosto de 2012

VAMOS FAZER ARTE?


Terça feira dia 21 de agosto de 2012  foi o primeiro encontro das mulheres que estão inscritas para as oficinas do projeto “Fazendo Arte” que estará acontecendo 2 vezes por semana na ONG. Essa iniciativa e visa capacitar mulheres a trabalhar com Customização e Oficinas de artesanato.
O público alvo são mulheres de 3 diferentes comunidades onde a Pão é Vida já atua com outras ações educativas.
Informações podem ser obtidas pelo (81) 9752 0140 ou 9278 9315 – A ideia é que as mulheres peguem firme e possam comercializar o material produzido em feiras e exposições. Muitas delas são mulheres que tem filhos pequenos, podendo assim produzir peças em suas casas.
Estamos tendo a parceria da Célia, uma voluntária que é uma exímia artesã e atuou ministrando também aulas no SENAI em S.CC.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O POETA DA BICICLETA

                   Poeta Antônio Francisco

Membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel desde 2006, o poeta Antônio Francisco Teixeira de Melo é conhecido como um dos maiores cordelistas da região. Graduado em História pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), Antônio Francisco apresenta pelos palcos da vida todo o seu talento de cordelista, xilógrafo e compositor.
Ele começou a trabalhar profissionalmente com literatura tardiamente, aos 45 anos, mas isso não o impediu de construir uma carreira sólida, que rendeu vários livros e cordéis publicados e ter seu nome comparado a grandes mestres da cultura popular, como Patativa do Assaré. Nesta entrevista, o poeta fala sobre sua vida, desafios e sua paixão, a literatura. 
O Mossoroense: Como foi que o senhor despertou o gosto pelos cordéis?

Antônio Francisco: Comecei a gostar de cordéis, quando vi meu pai abrir sua mala e ali dentro estar vários, como o "Português de melancia", "O pavão misterioso", foi assim que comecei a tomar gosto pelos cordéis. Além disso, sempre li jornais. Quando era gazeteiro, as letras dos jornais ficavam pregadas em mim. Também tinha uma tia que contava histórias, contava que ia a pé para Canindé... Então aquelas histórias da minha tia ficavam na minha cabeça. E foi então que comecei a ser também contador de histórias e fui escritor pela vivência, aos 45 anos. Antes eu escrevia de brincadeira, fazia uma paródia, uns versos livres para os amigos, mas publicar mesmo eu só vim publicar com 45 anos de idade.
OM.: Na maioria das vezes, a pessoa começa a construir uma carreira profissional aos 20 e poucos anos, principalmente na área cultural, que é uma área difícil para a maioria, com muitas barreiras a serem vencidas. Por que o senhor decidiu iniciar a carreira de cordelista aos 45 anos de idade?
AF.: Eu sempre tive muita energia, e ainda tenho. Antes tudo que eu via eu queria ser. Queria ser pintor, escultor, retocar, jogar bola. Depois decidi ser esportista. Eu tinha a vantagem da minha saúde que permitia que eu fosse ciclista. Apesar de ser pequeno, comprei uma bicicleta passei uma parte boa da minha vida andando de bicicleta, sou louco por bicicleta, conheci muitas cidades. Enquanto que para uns andar de bicicleta é só um esporte, para mim é um grande lazer. Passei muito tempo dedicado ao esporte e não tinha tempo para outras coisas.

Somente depois dos 40 anos começou a minha aproximação com Crispiniano Neto, Luiz Campos, Caio Cézar Muniz, com a Poema e comecei a fazer recitais. Eu acho que se a pessoa não dá certo no palco, não dá certo. Eu dei certo, graças a Deus. Hoje sou convidado para fazer palestras em vários locais e muitas pessoas leem meus cordéis.
OM: O senhor teve apoios na sua carreira como poeta?
AF.: Em toda minha vida eu soube que era muito difícil conseguir vitória nessa área, mas eu consegui. E contei com a ajuda de muitas pessoas. Um dos grandes passos da carreira foi quando conheci Vingt-un Rosado. Ele foi a mola-mestra na minha carreira. Ele sempre me incentivou, ficava insistindo para eu fazer livros, tanto que eu fiz. Como diz Crispiniano, meu livro foi Vingt-un quem fez. (risos). Foi tudo graças a ele, a Poema, meus amigos, desde o começo. E de lá para cá foi dando certo.
OM: O senhor tem quantos cordéis e livros publicados?
AF.: Eu escrevo pouco. Vou contar uma história: Quando era jovem, morava na Lagoa do Mato, eu sacudia pedra de uma margem da lagoa para outra. Um dia chegou um senhor com cinco pedras e perguntou quantas das cinco pedras eu conseguia atravessar até o outro lado. Eu disse que não posso, não são cinco pedras qualquer que sei que vou conseguir arremessar pela lagoa. São cinco pedras escolhidas por mim, que eu sei que irá atingir o outro lado. Com os cordéis é desse jeito. Entre cinco ou seis assuntos, eu escolho um para dar certo. Não é todo assunto que dá um cordel. Por isso, tenho uns 40 títulos de cordéis publicados. Já com relação a livros, tenho quatro livros publicados e um sendo preparado.
OM.: Um de seus livros, "Dez Cordéis num cordel só", foi incluído na lista de obras para o Processo Seletivo Vocacionado (PSV) da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern). Como o senhor avalia essa indicação?
AF.: Ter um livro indicado no vestibular da Uern foi um marco da minha vida como escritor e como mossoroense. Imagine, você ter um livro no meio de nomes como o de Machado de Assis, Cecília Meireles. Você saber que milhares de jovens vão ler o seu livro é muito gratificante. Eu acho bom, foi um grande troféu.
OM.: A sua história de vida foi tema de um documentário "O Poeta e a Bicicleta", que foi exibido em um festival de curtas em Lisboa, Portugal. O senhor imaginava que sua história fosse ser propagada tão longe.
AF.: Com o resultado do documentário fiquei muito feliz, e mais feliz ficou Talles Chaves, o diretor do filme. Eles fizeram o documentário em uma oficina de curtas e chegaram até onde chegaram pela qualidade. Nem eles pensavam e nem eu imaginava que íamos chegar tão longe. De levar o nome de Mossoró a Portugal. Eu ganhei, ele ganhou e toda a cultura de Mossoró ganhou com isso.

OM.: Hoje o senhor é um cordelista conhecido, que conseguiu reconhecimento pelo seu trabalho. Quais as dificuldades que teve até chegar aqui?
AF.: Não tive muitas dificuldades. Até porque nunca fiz nada que eu não gostasse. Quando eu era sapateiro, eu me acordava às 4h da manhã e ficava rezando para o dia amanhecer para fazer sapato. Quando eu era pintor, passava a semana abrindo letras em Mossoró e no sábado e domingo, meus dias de lazer, eu ia olhar as letras que eu fiz. Já nos cordéis, comecei com 45 anos, já comecei maduro, sabia das dificuldades. Eu ia de bicicleta pedir patrocínio, e o cara chegar de bicicleta numa loja para pedir patrocínio é difícil, eu já ia consciente.

Na verdade o meu sonho, e foi o que eu alcancei, foi conseguir que minha família, meus vizinhos, meus amigos lessem meus livros. E hoje, muita gente recita meus livros, em Mossoró eu vejo as professores lendo meu livro para os alunos, os estudantes lendo o meu livro para o vestibular.E isso me deixa alegre. Quando você quer convencer o mundo, você deve primeiro convencer em casa. E eu acho que consegui isso. Quando vi um sobrinho meu com o livro na mão aquilo para mim foi uma felicidade. Às vezes a pessoa pergunta, você é feliz fazendo isso, fazendo aquilo? Eu sou feliz demais.

OM: O senhor demonstra um grande carinho pelos livros. Na sua opinião, qual a importância da leitura para a formação dos cidadãos?
AF.: Eu acredito que a pessoa não pode viver uma vida toda sem ter tido o prazer de ler. Às vezes, a mãe obriga o filho a ir à escola, a ler um livro. É preciso fazer a criança e o jovem compreenderem que escola não é um castigo, a leitura não é um castigo. A leitura é um prazer, um conhecimento, uma viagem. Quando peguei um livro e vi que através das letrinhas você viajava, conhecia vários mundos, chorava, se emocionava e ainda tem o conhecimento e a vontade de dizer isso nos cantos contando sua história, aquela foi a maior alegria do mundo. Tenho minha biblioteca, deito naquela redinha (ele fala de uma rede armada na sala de sua casa), redinha de Caicó. Isso para mim é uma felicidade.

OM.: Como o senhor se define atualmente?
AF.: Hoje com 62 anos, não sei se estou mais feliz porque tenho minha profissão ou porque dei uma carreira e agradeci a Deus como é bom ter saúde e disposição para viver. Quando vinha pela manhã, encontrei com um contemporâneo meu dizendo que estava com artrose, então eu parei para não passar correndo por ele. Eu sou uma pessoa feliz. Fico muito feliz de ter escolhido as profissões que eu gosto e de fazer aquilo que me dá prazer.
Por Adriana Morais adriana.morais20@hotmail.com
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  MEU SONHO UMA DE SUAS OBRAS PRIMAS
CANSADO DE LER JORNAIS FUI ME DEITAR DESCONTENTE
PENSANDO EM TUDO QUE LI, ADORMECI LENTAMENTE
E SONHEI QUE EU ACORDAVA NUM OUTRO LUGAR BEM DIFERENTE...
ERA UM LUGAR COBERTO DE PLANTAS DE TODAS AS CORES,
AS LAGOAS ORQUESTRADAS POR MARRECOS CANTADORES
E AS ABELHAS BAILANDO POR ENTRE AS PÉTALAS DAS FLORES... 
FIQUEI UM TEMPO PASMADO, DEPOIS SAI CAMINHANDO, SEGUINDO O CURSO DE UM RIO COM OS PEIXINHOS PULANDO, AS FLORES EXALANDO O CHEIRO E A FLORESTA CANTANDO...
DEPOIS EU PAREI PRA VER, PERTO DE UMA PEDREIRA, QUATRO HOMENS CONSTRUINDO DE PEDRA UMA CADEIRA... EU PERGUNTEI A UM DELES: - PORQUE NÃO FAZ DE MADEIRA?
DISSE: - "NÃO TEMOS CORAGEM DE CORTAR UMA ÁRVORE TÃO BELA,PRA FAZER UMA CADEIRA SOMENTE PRA SENTAR NELA. ACHAMOS MELHOR FICARMOS SENTADOS NA SOMBRA DELA."
COM ESTA SIMPLES RESPOSTA, SEM QUERER ME ENVERGONHEI, PRA DISFARÇAR A VERGONHA, NUMA PEDRA EU ME SENTEI.
- HOMI, ONDE FICA A CIDADE, POR FAVOR?, EU PERGUNTEI. DISSERAM: - "SIGA ESTA TRILHA COM NOME DE LIBERDADE
LOGO MAIS TEM UMA PLACA QUE INDICA FELICIDADE... VÁ POR ONDE A SETA INDICA QUE CHEGARÁ NA CIDADE". QUANDO EU ENTREI NA CIDADE, PAREI EM FRENTE A UM GALPÃO TODO MURADO DE PEDRA, NA FRENTE UM GRANDE PORTÃO
COM UM LETREIRO ESCRITO EM CIMA: "HOSPITAL DO CORAÇÃO". ABAIXO, DO LADO ESQUERDO, TINHA UM PAINEL ESTUPENDO: EM CADA CANTO UMA LÂMPADA APAGANDO E ACENDENDO
COM O FUNDO COR DE PRATA COM LETRAS GÓTICAS DIZENDO: "AQUI SE ENCONTRAM INTERNADOS OS QUE SOFREM DE INGRATIDÃO, DE EGOÍSMO E INVEJA, ÓCIO, ÓDIO E AMBIÇÃO,
COBIÇA E OUTROS MALES QUE ENVENENAM O CORAÇÃO.
QUANDO EU OLHEI PARA O LADO, TINHA UM SENHOR ME OLHANDO
COM UM SORRISO NOS LÁBIOS E OS SEUS OLHOS BRILHANDO, BOTOU A MÃO NO MEU OMBRO E SAÍMOS CONVERSANDO...
ELE DIZIA, BAIXINHO: PODE FICAR A VONTADE... VAMOS CAMINHAR COMIGO PELAS RUAS DA CIDADE, E CONHECER DE PERTINHO A NOSSA FELICIDADE...
EU ANDAVA OLHANDO AS CASAS BRANCAS DA COR DE MARFIM, PORTAS E JANELAS DE VIDRO COM CORTINAS DE CETIM,
TODO QUINTAL UMA HORTA, TODA CALÇADA UM JARDIM...
QUANDO CHEGAMOS NA PRAÇA, EU PAREI, PASSEI A MÃO NUMA ESTÁTUA DE OURO PARECIDA COM SANSÃO,
SÓ QUE, EM VEZ DE UMA QUEIXADA, ERA UMA ENXADA NA MÃO.
EU PERGUNTEI PARA O HOMEM: É DE UM PARLAMENTAR? ELE ME RESPONDEU COM UM SORRISO NO OLHAR:
NÃO! É DE UM AGRICULTOR, O NOSSO HERÓI POPULAR. QUANDO SAÍMOS DA PRAÇA, VI NUM PÉ DE BURITI UMA LINDA ÁGUIA AZUL AO LADO DE UM BEM-TE-VI.
EU PERGUNTEI: ONDE É QUE FICA O ZOOLÓGICO DAQUI? RESPONDEU:-"NÃO TEMOS JAULA NEM GAIOLAS NA CIDADE. AQUI ANIMAIS E PÁSSAROS CONVIVEM COM LIBERDADE, PARA NÓS É MAIS BARATO CRIÁ-LOS FORA DA GRADE."
EU DISSE: POIS DE ONDE EU VIM SE UM PÁSSARO CANTAR BEM VAI MORRER POR TRÁS DAS GRADES SEM TER MATADO NINGUÉM, E CANTAR PRA SEUS ALGOZES A TROCO D'ÁGUA E XERÉM.
DO LUGAR QUE EU VIM SENHOR, DO SEU É BEM DIFERENTE NO MEU, O PAI VAI AO SHOPPING, LEVA SEU FILHO INOCENTE, COMPRA ARMAS DE BRINQUEDO E DÁ A ELE DE PRESENTE
AQUI NESTE LUGAR O AGRICULTOR TEM NOME NA ONDE EU MORO ESSE POBRE PASSA FOME... LAVRA A TERRA, PLANTA, COLHE E MUITAS VEZES NEM COME.
LÁ, A GENTE MATA UM ALCE, TIRA AS VÍCERAS DO COITADO, DEPOIS ENCHE ELE DE PANO, DEIXA O ALCE EMPALHADO
QUE É PRA MOSTRAR NO FUTURO O QUE TÍNHAMOS NO PASSADO...
SOU DE UM LUGAR QUE SÓ VIVE EM PÉ DE GUERRA, ONDE FABRICAM DOENÇAS, ONDE A JUSTIÇA MAIS ERRA... UMA GAIOLA DE LOUCOS CHAMADA PLANETA TERRA..
OS OLHOS DAQUELE HOMEM AUMENTARAM SUA LUZ E PERGUNTOU: - "É VERDADE QUE LÁ FIZERAM UMA CRUZ PRA CRUCIFICAR UM SANTO CONHECIDO POR JESUS?"
RESPONDI: - É VERDADE, NÓS MATAMOS NOSSO REI. FUI FALAR ABRI A BOCA, FALTOU VOZ, EU NÃO FALEI,
QUIS CORRER, NÃO TIVE FORÇAS FALTOU FÔLEGO, ME ACORDEI. ACORDEI PARA CHORAR DEBRUÇADO MO MEU LEITO.
DAQUELE SONHO PRA CÁ, NUNCA MAIS DORMIR DIREITO. ORA TENTANDO ESQUECER, ORA PENSANDO EM FAZER O MUNDO DAQUELE JEITO.
Autor: Antonio Francisco

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

MANARI JÁ FOI TEMA DE VÁRIAS REPORTAGENS

Manari se livra de pior IDH, mas não da miséria
Angela Lacerda, de O Estado de S. Paulo
18 de junho de 2011 | 18h 50
MANARI - Ana Paula da Conceição, o marido João José dos Anjos, e os filhos Natália, Roberto e Luzimara - de seis, cinco e três anos - ainda não haviam comido nada. Luana da Conceição, de três meses, era a única que já havia se servido do peito magro da mãe. Num tosco fogão a lenha, no terreiro atrás da casa de piso de terra, Ana cozinhava feijão puro - doação de um vizinho que serviria de alimento para o dia.
"Ontem só tomei café", contou ela, analfabeta, encabulada, sem saber dizer a própria idade. Eles moram no sítio Bebedouro, área rural de Manari, município que ficou famoso nacionalmente no início da década passada por ter o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do País. Desde então, alvo de programas governamentais, Manari não mais detém o incômodo título. Mas a miséria persiste.
Ana não recebe Bolsa Família. "A gente tenta há quatro anos", diz João José, 27 anos, que trabalha na roça, como a maioria dos 18.038 habitantes do município. Planta feijão e milho "na terra dos outros" e fica com metade. Nem sempre a produção dá para o sustento. "Dá desgosto", diz.
Maria da Paz da Conceição, 48 anos, cinco filhos, sorri com a boca meio fechada para esconder os "caquinhos" de dente que lhe restam. Ela nunca foi a um dentista. O marido, Ivanildo Mangueira da Silva, também luta na terra pela sobrevivência e não se preocupa com o fato de o filho de 11 anos não saber ler, embora frequente a escola municipal, onde faz a terceira série. "A caneta dele é a enxada", minimiza, ao lembrar que o menino o ajuda e já sabe manejar o instrumento de trabalho.
Com uma vida cheia de limites, os sonhos também são limitados. Maria ficaria feliz se tivesse um fogão a gás. Geladeira é objeto de desejo - mas supérfluo, pois não teria o que pôr dentro.
Município sem saneamento básico, banheiro é artigo de luxo em Manari, a 380 quilômetros de Recife. Na zona rural, ninguém parece sentir falta de sanitário e papel higiênico. No Sítio Bebedouro, onde se localiza um lixão a céu aberto, a falta de higiene fica mais visível: moscas e ratos costumam dividir espaço nas casas, cujo mobiliário se resume basicamente a camas velhas.
Ficar doente e não ter assistência nem como se comunicar. Ir para a escola e não ter merenda nem livros. Receber treinamento de manejo de galinhas ou de apicultura e não ir adiante por falta de recursos. Ter água no subsolo e não poder explorar. "Isso também é miséria", afirma José Limeira, 40 anos. Líder comunitário dos sítios Carnaúba, Umbuzeiro e Aguada, que reúne 84 famílias.
Josefa Cícera da Silva, 24 anos, com filhos de três, quatro e cinco anos, conta que as duas crianças mais velhas andam cerca de três quilômetros para ir à escola municipal. Ela nunca fez um exame pré-natal na vida. Por conta da casa sem reboco, diz que os filhos estão sempre "doentinhos".
Para lavar roupa e tomar banho todos se servem da água de aparência suja de barreiros - alguns a mais de um quilômetro de suas casas. Essas mulheres, assim como outros moradores do Umbuzeiro receberam, no dia 15, certificado de um curso de avicultura básica do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), ministrado em um dia. "Esse papel aqui (a apostila) a gente vai guardar de lembrança", diz Arlete, ao lado do grupo reunido próximo à casa de Limeira. "Não tem como botar na prática."
Fracasso. Cícero Francisco da Silva, 51 anos, é professor da escola municipal do Umbuzeiro, que tem 55 alunos. Conta apenas com o manual do professor e escreve a matéria das várias séries para as crianças copiarem, já que só dispõem de caderno e lápis. A merenda, segundo ele, é suficiente para oito dias. No restante do mês, não há lanche. Afirma contar nos dedos os alunos que ensinou ao longo de quase três décadas que conseguiram superar a linha da miséria. "É um fracasso", afirma.
Em 2000, a renda média de Manari era de R$ 41,14. Dez anos depois, atingiu R$ 210,44. 
O comércio, ainda fraco, cresce e começa a sair da informalidade. O número de famílias beneficiadas com o Bolsa Família chega a 3.025. O acesso à cidade foi asfaltado.
"Não somos mais o que éramos", diz, otimista, o vereador Cícero de Oliveira Santos (PSB). Cita melhoria da autoestima do povo e geração de oportunidades para as famílias de Manari - uma cidade que não oferece atrativos ou desperta encanto em quem nela chega. Seu prefeito, Otaviano Martins (PSDB), não mora lá nem dá expediente na prefeitura. O Estado tentou contato com ele, por telefone, sem sucesso.
FONTE: O ESTADÃO
A JORNADA
“O que tem que mudar no Brasil para a sua vida dar uma melhorada?” 
20 de Novembro 2008
Nós (Alexandre Apsan Frediani e Gustavo Pellizzon) fomos contratados pela PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) para irmos aos 10 municípios de menores IDH do Brasil e buscar respostas para essa pergunta.
A intenção da pesquisa é buscar opiniões e perspectivas das populações mais excluídas do Brasil para informar a escolha do tema para o próximo relatório sobre Desenvolvimento Humano da PNUD no Brasil.

Nossas atividades em campo almejam valorizar o ser humano, suas capacidades e potencialidades. É a força, os sorrisos, a esperança, a solidariedade, as invenções que as pessoas fazem para reinventar a vida mesmo em sua condição mais sofrida.
Acordamos às 6 para tomar um ótimo cafe da manhã. No caminho para Manari ligamos o radio para nos distrair com as noticias matinais: Ele pegou a faca, esfaqueou o braço da vítima, esfaqueou o peito da vitima, esfaqueou o pescoço da vitima, degolou a cabeça de vitima. O delegado ou delegada Darcir Não sei das quantas encontrou o corpo na noite do dia seguinte! A cabeça estava do lado do corpo… e o radio chchchchchch, já era também… Graças a Deus! Até Manari a estrada estava boa, e quando chegamos fomos direto a prefeitura, que é o primeiro prédio da cidade. Após algumas conversas nos apresentaram ao Ricardo, professor e funcionário do conselho tutelar, que foi o nosso guia nos próximos dois dias.
Nosso primeiro tema de abordagem foi a feira, que estava acontecendo no centro da cidade e deixando os sítios (povoados) vazios. Ali encontramos o inusitado vendedor de remédios para próstata e outras mazelas com produtos naturais. Para atrair consumidores, ele tinha um casal de cobras e um megafone. Ele literalmente fazia a cobra subir! Um exemplo do cara que dá o seu jeito para ganhar a vida no meio de tanta adversidade.
Ao conversar com Fabiana do conselho tutelar, descobrimos que a prostituição infantil é um grande problema do município. Fomos a uma casa onde pelo menos 4 garotas entre 7 a 10 anos tinham sido abusadas e elas deixavam em troca de balas, pipocas ou um trocado. Foi uma conversa muito forte e difícil. Mas elas nos contaram com alegria o sonho de ter uma bicicleta e saírem dessa situação. Foi muito bonito ver o sorriso no rosto dessas garotas.
Seguimos então para o sitio Queimadas. No entanto as condições da estrada não aparentavam ser as mais apropriadas, por isso mudamos o roteiro para o Pé da Serra. Após um mini rali sertanejo, tivemos que abandonar nosso moderno veiculo com ar condicionado para seguirmos no agradável carro de boi. No Pé da Serra encontramos famílias que vivem em condições de extrema necessidade: falta água, terra, escola (professores não vem há dois meses), e a péssima estrada dificulta qualquer contato com, o não muito distante, meio urbano. Foi um desafio arrancar um sorriso do rosto dessas pessoas. Impressionante ver como a vida sofrida dessas pessoas as fizeram aparentar pelo menos 15 anos a mais que a propria idade. Já escuro, partimos pela mata para reencontrar nosso carro e voltar para Garanhuns.
Logo cedo do dia 21, encontramos Ricardo na casa paroquial onde ele prepara a festa da padroeira. Antes de partirmos para a área rural do municipio fomos informados que em Manari existe muita plantação de maconha de pequenos agricultores. Queríamos  saber mais dessa realidade, mas os riscos para nós e para nossos contatos eram muito grandes. Decidimos manter nosso plano original e seguir para Sitio das Baixas, conhecido e estigmatizado como o lugar mais pobre da região. No caminho que nos levou pelo sertão mais duro e seco, atolamos uma vez mas seguimos em frente.
Como já tinhamos entrado em contato com uma liderança do local, a comunidade tinha se reunido para nos encontrar pela manhã. Casas de taipa, muita criança, vegetação tipica da catinga e imagens religiosas compunham o cenário do local.
Umas 20 pessoas participaram da atividade em grupo que identificou como principal proposta a união para conseguir casas e água. Em seguida entrevistamos alguns personagens: uma parteira que amava o seu plantio na serra; o morador mais antigo que queria uma associação para lutar pelos seus direitos; um pai de uma garota com necessidades especiais que achava que tinha que amar essa filha mais que as outras por deus tê-la feito diferente; uma professora que ama suas galinhas e cebolas. O lugar se mostrou o brasil em sua maior essência. Podíamos nos remeter a musica Procissão do Gil: “Eles vivem penando aqui na terra, esperando o que Jesus prometeu…”
Almoço não podia ser mais típico: Bode assado e feijoada! Para terminar o dia entrevistamos uma representante da Natura em Cercadinho, que fica no caminho de Pé de Serra. O depoimento dela teve um tom bastante sentimental, propondo mais amor para esse Brasil. Nos despedimos do agora amigo Ricardo com uma promessa: ele ficou de produzir repentes e cordel com a criançada da escola municipal com a pergunta: O que tem que mudar no Brasil para a sua vida dar uma melhorada.
                         REPORTAGEM // Manari e os dias melhores
"Aqui até o nada serve". Esta frase deu o tom final da reportagem que começou a ser publicada ontem no Diario sobre a cidade de Manari. Quem disse a frase foi a agricultora Teresa Maria dos Santos, de 54 anos. Uma mulher que construiu a sua vida naquele município do Sertão, que só foi emancipado em 1997, fica a 318,4 quilômetros do Recife e que não aparece em nenhuma das sinalizações da estrada. Um lugar perdido, esquecido, imerso em miséria e condições de vida subumanas, que parecia condenado a a ficar para sempre escondido por trás da poeira da areia do único caminho que leva até a cidade. 
No rastro da poeira dos números levantados pelo censo demográfico do IBGE em 2000, Manari apareceu da pior forma possível. No cruzamento de dados elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em 2004, a cidade apresentou o mais baixo índice de desenvolvimento humano do país (0,467). Altíssimas taxas de miséria, pobreza, analfabetismo e mortalidade infantil. Péssimos níveis de acesso à saúde, à educação e ao saneamento básico. Uma esperança de vida de 55,7 anos.
Teresa Maria está com 54. Mas a sua esperança de vida hoje, já não se mede. Esperança é uma palavra que a agricultora cultivou a vida inteira, mas foram raras as vezes que colheu os frutos. Uma vida simples. Sem chances de mudança: "Nunca pude ir para a escola. Minha família toda vivia na enxada e eu comecei a trabalhar na roça aos oito anos". Roça que garante a sua sobrevivência até hoje. "Tudo o que planto é para alimentar a minha família. Às vezes, dá pra sobrar uma coisinha...aí a gente vem vender na feira", diz Teresa - que não revela quanto consegue receber nessas pequenas vendas.
Depois de minutos de conversa, começa a ficar um pouco mais fácil entender o que ela quis dizer com "aqui até o nada serve". O "nada" de hoje, simplesmente, é melhor que o "nada" de ontem. "Vivíamos morrendo de sede aqui. Não tinha médico, remédios, nem escola. Sempre fomos pobres, mas hoje a gente acorda sabendo que vai viver", diz. Sua vida mudou. Pouco, mas mudou. Sua mãe tem 80 anos e uma saúde tranqüila. Viveu além da "esperança" da cidade. Seus quatro filhos reescreveram a história da família e aprenderam a escrever. Todos estão na escola. E Manari aprendeu a lição.
Sombrinhas
São 13h de uma terça-feira e o comércio está fechado na área urbana de Manari. E ficará assim pelo menos até às 15h. Pela rua, poucas pessoas caminham embaixo das suas sombrinhas para se proteger do sol. Aquele sol que se imagina de uma cidade do Sertão. Nas sombras das árvores, homens conversam embaixo dos seus chapéus. Passa um carro sem carroceria. Passa um porco. Dois homens estão quebrando o calçamento. Na verdade, construindo um futuro que demorou demais para chegar. Água encanada e saneamento básico. Dias melhores. Duas meninas com sombrinhas cor de rosa e cadernos na mão conversam baixinho enquanto seguem para a escola. Sorriem para a câmera.
Do outro lado da rua, uma pequena casa de muro verde e azul. Porta e janela. Telhas velhas. Na fachada, letras pretas e vermelhas avisam: AGÊNCIA DE VIAGENS. MANARI A SÃO PAULO. Por muitos anos, ali estava a saída. A saída de Manari. Se não a única, certamente a mais tentadora e, por isso mesmo, a mais comum. Todas as quintas, parte o ônibus. Clandestino. A passagem é R$ 180,00. A viagem, se tudo der certo, de dois dias. Conversando com as pessoas pelas ruas, é praticamente impossível encontrar alguém que não tenha ao menos um familiar em São Paulo.
"Todas as pessoas mais velhas têm família lá. Algumas bem estruturadas. A maioria, no entanto, ainda passa muitas dificuldades", conta Rogério Silva, 25 anos e comerciante na feira do município. Ele nunca teve um emprego com carteira assinada. Na verdade, qualquer tipo de emprego - que não seja ligado à Prefeitura - é algo praticamente inexistente ali. O pouco dinheiro que circula no tímido comércio da cidade é quase todo proveniente das aposentadorias e do funcionalismo público.
A condição de Rogério é até uma exceção. Vende verduras na feira e consegue tirar até R$ 350,00 por mês. Dinheiro suficiente para sustentar ainda a sua esposa e o filho de um ano e seis meses. Milagres...necessidades de Manari. Rogério já foi uma vez para São Paulo. Voltou e não tem planos para entrar de novo no ônibus das quintas-feiras.
Ele ficou e viu a cidade começar a mudar nos últimos dois anos. Debaixo dos seus pés, estão sendo construídos o encanamento para a água e a estrutura para a implantação do sistema de esgoto. Cisternas foram espalhadas pelos sítios na zona rural. A água da chuva consegue ser reaproveitada. Serviços básicos que, nesse caso, têm um significado muito maior. Falam em desenvolvimento. Pela primeira vez, como se este fosse realmente possível. As duas escolas foram reformadas. Os alunos agora podem completar o ensino médio sem ter que sair da cidade. O hospital teve as instalações recuperadas e, o mais importante, todos os dias, existe pelo menos um médico de plantão.
Desvio
"Sem a água encanada e o saneamento, não tem nem como imaginar um empresário de fora vir aqui, investir, montar uma fábrica, um hotel...", explica Lucas Bezerra, 28 anos, assessor do prefeito Otaviano Martins - que mora na cidade vizinha e quando está em Manari acaba atraindo uma pequena multidão para a frente da Prefeitura. Pessoas que precisam e pedem ajuda. Dinheiro, cestas básicas, remédios, materiais de construção. Otaviano costuma atendê-las. Um desvio de função, é verdade. Mas um tanto compreensível para quem está ali.
"Depois da cidade ter aparecido como a última colocada no IDH do país, os olhos das pessoas se voltaram pra cá. Todos passaram a ajudar. Foi algo ruim que trouxe coisas boas", resume Lucas - que, assim como toda a cidade, espera um futuro melhor.

O jornalismo às vezes tem uma lógica perversa. Vendo a miséria sumindo aos poucos no retrovisor, fica a certeza de que, no próximo censo do IBGE, aquela não será mais a cidade com pior Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil e certamente, não estará mais na rota das equipes reportagens - que seguem ávidas os rumos que as pesquisas e análises sociais revelam. Manari desaparece na poeira. 
 FONTE DA NOTÍCIA